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Estado em questão – Revista Sociologia

Instituição fortalecida após as revoluções que “inauguraram” o mundo moderno, o Estado nacional é objeto de intensos debates sobre seu futuro. Estaria o Estado em crise? Ele deixará de existir ou se apresentará sob novas formas?

por Maysa Rodrigues

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É por meio de uma série de categorias que cada um de nós se situa em relação à realidade a nossa volta. Idade, etnia, gênero, classe social e nacionalidade são alguns desses marcadores que definem quem somos para nós mesmos e também para os outros. Identificamo- nos como brasileiros, italianos ou dinamarqueses a partir de nosso país de origem. Logo ao nascermos, ganhamos uma nacionalidade que nos acompanhará por toda a nossa história, vinculando a nossa existência a um país e conferindo-nos uma série de restrições, deveres e sentidos. É difícil concebermos um mundo em que o Estado nacional não seja central na formação de nossa identidade e na organização da vida social. Entretanto, o Estado como o conhecemos hoje nem sempre existiu e tão pouco tem sua permanência garantida no futuro das sociedades. “No que diz respeito às criações humanas nada é permanente. Sobretudo quando não estamos falando de coisas físicas, ou seja, quando nos referimos às instituições sociais – como o capitalismo, a escravidão ou o Estado”, explica o professor do Departamento de História da USP, Modesto Florenzano.

Nesta reportagem, o leitor será apresentado para algumas questões e teorias que colocam a fixidez do Estado em debate, ao mesmo tempo em que buscam explicar por que essa instituição nos parece tão inabalável.

O Nascimento do Estado Moderno

Em primeiro lugar, é importante fazer uma distinção entre o Estado em geral e o Estado-nação moderno. Para citar alguns exemplos, na configuração de poder do feudalismo e da Roma Antiga* já havia a figura do Estado. Nesse sentido, Max Weber define esse conceito a partir de seus meios e não por seus fins, uma vez que, na prática, os Estados podem ter perfis muito diversos, além de perseguir diferentes finalidades. “O Estado fascista, por exemplo, perseguia os fins próprios à sua ideologia. Da mesma forma, os Estados comunista, comunista, feudal, absolutista ou democrático buscaram fins característicos. O que há em comum é que todos eles detêm o monopólio legítimo da violência, conforme teorizou Weber”, explica o professor Florenzano. Segundo o historiador, não haveria um consenso sobre o momento inaugural do Estado. “A documentação que temos a partir de uma determinada época é muito nebulosa e indireta. O que sabemos é que os romanos, os chineses e os egípcios, dentre outros, já tinham criado formas estatais bastante sofisticadas. Antes disso, o que havia era uma situação tribal, em que as sociedades estavam saindo da condição de comunidade primitiva. Já havia poder, mas ele não estava cristalizado em formas estatais”, completa.

*Roma Antiga » Civilização surgida no interior da chamada Península Itálica, deu origem aos sistemas monárquico, republicano e imperial de poder que dominaram boa parte da Europa e da região do Mediterrâneo, ou seja, o Império Romano. Muito do que sabemos sobre leis, formas de governo e organização social – ao menos do modelo ocidental – tem origem ou inspiração nos romanos.

Especificamente em relação ao Estado-nação moderno, é possível pensarmos em um momento de sua formação. “O Estado é anterior à nação, pelo menos ao que diz respeito ao Ocidente europeu, no qual foi a existência prévia do Estado que criou a nação ideologicamente. Podemos pensar em nação como uma ideologia ou como um sentimento. Nesse sentido, o Estado é um arranjo político que contribui fortemente para essa ideologia”, define Florenzano. Conforme será aprofundado adiante, o professor explica que, para que a nação se constitua e crie uma identidade enquanto tal, dois fatores são fundamentais: “É necessário que haja uma língua e/ou uma religião comum para haver um sentimento de nação envolvendo o Estado”, completa. Segundo os historiadores, a formação do Estado-nação moderno ocorreu a partir da decadência do feudalismo. Com a chegada do século 14, começou a emergir uma nova classe social que vivia à margem dos feudos e da atividade agrária. Chamada de burguesia, essa classe era predominantemente comerciante e se fortaleceu devido ao renascimento comercial e urbano que ocorreu na Baixa Idade Média que, por sua vez, ocorreu a partir da revitalização do comércio engendrada pelas guerras das Cruzadas* . O antigo mundo feudal, marcado por territórios autônomos, agrários e autossuficientes, teve sua economia transformada por feiras e rotas comerciais, que passaram a ser cada vez mais comuns. Em consequência disso, ao redor dos feudos surgiram pequenas vilas – chamadas de burgos – que comportavam um modo de vida ligado ao comércio, bastante diferenciado do interior feudal. Aos poucos, desses burgos emergiram as cidades, nas quais comerciantes e artesões passaram a organizar o seu trabalho reciprocamente.

*Cruzadas » Movimento militar e religioso de agrupamentos cristãos ocorrido entre os séculos 11 a 13. Tinha o intuito de conquistar dos mouros muçulmanos as terras santas da região de Jerusalém e colocá-las sob domínio da doutrina cristã e seu poder. Classificada como uma “guerra santa”, foram nove as Cruzadas, embora algumas fontes considerem apenas as sete primeiras como tal.

“No que diz respeito às criações humanas nada é permanente. Sobretudo quando não estamos falando de coisas físicas, ou seja, quando nos referimos às instituições sociais como o capitalismo, a escravidão ou o Estado”
Modesto Florenzano , professor do Departamento de História da USP

Estava nascendo um novo modo de produção que possibilitaria o surgimento da sociedade moderna. Entretanto, esse capitalismo incipiente tinha demandas incompatíveis com a situação daquela época. A fragmentação do poder em feudos e os particularismos em termos de medidas e moedas eram verdadeiros entraves ao desenvolvimento capitalista. A partir disso, a burguesia já fortalecida, em aliança com a antiga realeza – que naquele momento representava apenas um papel simbólico – enfrentou o poder feudal e foi capaz de unificar os Estados nacionais.

Apesar desse modelo ser correntemente apresentado para dar conta do surgimento dos países atuais, o professor Florenzano explica que o Estado-nação moderno se desenvolveu paulatinamente ao longo da história e que esteve diretamente relacionado com a difusão do sentimento nacionalista. “Entre os séculos 16 e 17 surgiram, no Ocidente, os primeiro Estados nacionais modernos, sob a forma de monarquias absolutistas. Portugal e Inglaterra podem ser considerados os primeiros, pois ao mesmo tempo em que esses Estados se constituem como unidades políticas soberanas, apareceram os sentimentos, respectivamente, de uma nação portuguesa e inglesa”. Ele completa que no caso da França e da Espanha esse sentimento teria se cristalizado apenas um pouco mais tarde, pois as suas monarquias abrigavam regiões com culturas e etnias que não se identificavam nem com Castela, no caso da Espanha, nem com a região de Paris, no caso da França. “Em um segundo momento, a partir da Revolução Francesa, o sentimento de nacionalismo se difundiu para a Europa”, prossegue. Para o professor, é a partir do século 18, com o advento da Revolução na França, que podemos falar com total segurança na existência de Estados nacionais e de ideologias nacionalistas na Europa. Finalmente, conforme completa Florenzano, em um terceiro momento, no século 19, os Estados nacionais teriam amadurecido ainda mais com o desenvolvimento do romantismo e com a força do nacionalismo alemão.

Além disso, o professor argumenta que mesmo os Estados nacionais modernos – desde seus primeiros esboços, nos quais o nacionalismo ainda não estava totalmente desenvolvido, até o seu desenho atual – sofreram e podem continuar a sofrer mudanças em suas configurações.

Max Weber e o conceito de Estado
A definição weberiana de Estado é talvez uma das mais famosas na Sociologia. No artigo Política como Vocação, o autor afirma que o Estado é “uma relação de homens que dominam seus iguais, mantida pela violência legítima (isto é, considerada legítima)”. Assim, na conceituação de Weber, o Estado é um aparato administrativo e político que detém o monopólio da violência legítima dentro de um determinado território, a partir da crença dos indivíduos em sua legitimidade.

Dois pontos são fundamentais na descrição do autor. Primeiramente, o monopólio estatal da violência legítima não significa que apenas o Estado fará uso da força, pois indivíduos e organizações civis poderão eventualmente fazer uso da violência física. Entretanto, apenas o Estado é autorizado pela sociedade para usá-la com legitimidade. Assim, organizações como a máfia italiana ou o crime organizado no Brasil são exemplos de grupos que fazem uso da força sem, todavia, terem o apoio do resto da sociedade para fazê-lo, de forma que a legitimidade do Estado não é questionada. Já, os grupos separatistas que fazem uso da violência para organizar revoluções de cunho político podem, eventualmente, colocar a legitimidade estatal em questão se obtiverem o apoio da maior parte da população.

Em segundo lugar, essa autorização social do uso da força ocorre porque os dominados aceitam obedecer a seus dominantes. Essa aceitação, por sua vez, tem três possíveis justificativas. Pode ocorrer devido a uma “autoridade do passado eterno, ou seja, dos costumes consagrados por meio de validade imemorial”, chamada de dominação tradicional. Outra possibilidade é que ocorra devido ao carisma de um líder (dominação carismática). E, como conhecemos nos Estados modernos, ocorre através da legalidade, ou seja, é “fundada na crença da validade legal e da competência funcional baseada em normas racionalmente definidas” (dominação legal).

“O Estado é anterior à nação, pelo menos ao que diz respeito ao Ocidente europeu, no qual foi a existência prévia do Estado que criou a nação ideologicamente. Podemos pensar em nação como uma ideologia ou como um sentimento. Nesse sentido, o Estado é um arranjo político que contribui fortemente para essa ideologia” Modesto Florenzano , professor do Departamento de História da USP

Apesar das particularidades, nos três casos a dominação fundamenta-se exclusivamente na crença da maior parte das pessoas que fazem parte de um determinado Estado na legitimidade do poder daqueles que a domina. Essa definição implica que um Estado não mais se manteria se, do dia para a noite, a parcela majoritária das pessoas que sustentam a sua existência deixasse de acreditar na validade do sistema que a governa, passasse a fazer uso da força e a acreditar que pode fazê-lo legitimamente. Sendo assim, a instituição estatal somente se sustenta com a aceitação e com o apoio dos dominados. Weber, de certa maneira, se amparara em um elemento psicológico para justificar a dominação estatal. Por causa disso, o Estado tem que se apresentar permanentemente aos cidadãos como legítimo, para manter a crença em sua validade.

No caso do Estado burocrático, sustentado pela dominação legal, estabeleceu-se uma série de normas e limites para a legitimidade do uso estatal da violência. Dessa forma, a força física só poderá ser usada dentro de determinados preceitos, sob o risco de que o Estado perca sua legitimidade se desafiá-los. No Estado contemporâneo, a instituição de leis que prescrevem as situações em que a violência poderá ser usada estabelece uma boa possibilidade de que todas as pessoas sejam tratadas da mesma forma e que tenham algum controle sobre as determinações que os rege. Esses elementos foram fundamentais para que o conjunto da sociedade abrisse mão do uso legítimo da violência e se submetesse a dominação estatal na sociedade moderna.

Estado-nação como uma ideia
Conforme afirma o teórico Stuart Hall* em seu artigo A questão da identidade cultural, “as culturas nacionais no interior das quais nascemos são uma das principais fontes de identidade cultural”. Longe de ser algo hereditário ou natural, a identidade nacional, assim como todas as outras formas de identificação cultural, seria uma representação simbólica. Da mesma maneira, o Estado nacional não seria apenas uma categoria política, mas também uma ideia imaginada. Nesse sentido, concebe- se a nação como um discurso, ou seja, como uma história que é formulada sobre as origens de um povo e que passa a conferir sentido e a orientar o presente e o futuro daqueles que dela fazem parte.

*Stuart Hall » Nascido na Jamaica em 1932, Stuart Hall é um ensaísta e teórico cultural associado aos Cultural Estudies, tendência surgida na década de 1950 como uma renovação da teoria crítica marxista. Hall estudou e leciona no Reino Unido e é autor de livros como A identidade cultural na pós-modernidade.

Inúmeras estratégias conformariam a identidade nacional. Dentre elas, Hall elenca a “narrativa da nação”, ou seja, “um conjunto de histórias, imagens, paisagens, cenários, eventos históricos, símbolos e rituais nacionais” que estão frequentemente presentes na cultura popular, na mídia e na literatura. O autor também fala em uma representação nacional que enfatiza uma origem que se mantém imutável atemporalmente. Nesse mesmo sentido, há uma “invenção da tradição”, ou seja, é formulado um ponto de partida que é tomado como algo verdadeiro e muito distante, mas que, na verdade, não é necessariamente como se diz ser. Esse ponto de partida pode não ser tão antigo assim ou não ter ocorrido conforme a idealização histórica o remonta. O “mito fundador” é uma dessas narrativas que localiza a nação em um tempo tão antigo que perde sua concretude e aparece como mítico.

Entretanto, Hall chama a atenção para o fato de que as identidades nacionais não são culturas naturalmente unificadas, mas um “dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade”. Dessa forma, a unificação cultural na maioria das nações só foi instituída a partir do uso da violência em relação a outros povos, inclusive aos habitantes originais daquele território. Ainda assim, os países são sempre compostos de uma diversidade em termo de classes sociais, etnias e gênero.

Apesar dessas ressalvas, Hall afirma que a identidade nacional foi a forma preponderante de identificação até o final do século 20. Entretanto, a partir das últimas décadas desse século, a aceleração naquilo que se convencionou chamar de globalização estaria alterando o papel da identidade nacional e do Estado como organizadores da vida social.

“Enquanto houver dominação de classe haverá política e esta assumirá uma forma estatal. Mas, se o comunismo é o fim das classes e da luta entre elas, então ele é também o fim da política e do Estado como forma de dominação”
Alvaro Bianchi, professor do De partamento de Ciências Políticas da Unicamp

Evidências de declínio
Ainda do ponto de vista da identidade nacional, Hall afirma que a globalização implicaria em “processos que, operando em uma escala global, atravessam fronteiras nacionais, integram e conectam comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo mais interconectado na realidade e na experiência”.

Apesar de não se tratar de um fenômeno recente – pois já era presente durante a expansão dos povos antigos, nas grandes navegações do século 15, dentre outros momentos -, a globalização teria se acelerado intensamente a partir da década de 1970, implicando em um impacto na forma como as identidades nacionais são formuladas.

Para alguns teóricos, isso significa o enfraquecimento e a fragmentação na representação do Estado nacional, com a contrapartida do fortalecimento de outras referências mais globais. Hall explora essas possibilidades, mas também pondera que, ao mesmo tempo em que a globalização possa de fato levar ao declínio da identidade nacional a partir de uma homogeneização cultural global que realiza, é possível que haja um fortalecimento das culturas locais em resposta ao fenômeno.

Um autor importante que, de uma forma diferente, também sugere o enfraquecimento do Estado é o cientista político Ronald Inglehart* , para quem um novo conjunto de valores – que nomeou de Pós-Materialistas – tende a se tornar hegemônico nas sociedades contemporâneas e, com isso, mudar as relações das pessoas com a política e com o Estado. Esses novos ideais seriam caracterizados por uma maior valorização da democracia direta, com menos propensão dos indivíduos a aceitarem o controle hierárquico ou as instituições intermediárias entre si e a vida política (como partidos e o próprio Estado). Dessa forma, os indivíduos estariam mais inclinados a uma participação direta e à tomada de iniciativas.

*Ronald Inglehart »Ronald F. Inglehart é um sociólogo e cientista político da Universidade de Michigan, estudioso da questão do Estado, da modernidade e da globalização. Uma de suas obras publicadas em língua portuguesa é Modernização, Mudança Cultural e Democracia, em co-autoria com Christian Welzel.

Outro estudioso que pensou sobre os possíveis efeitos da globalização no Estado nacional foi o sociólogo francês Michel Wieviorka* Michel Wieviorka*. Em seu artigo O Novo Paradigma da Violência, ele afirma que “de muitos pontos de vista, os Estados contemporâneos, ou pelo menos alguns dentre eles estão enfraquecidos”. Apesar de seu foco principal ser a realização de um balanço da violência no passado e na atualidade, verificando as mudanças e as continuidades, o autor acaba lidando com a questão da alteração na configuração do Estado nacional, assim como no seu possível declínio. Isso ocorre porque Wieviorka toma o já analisado conceito de Estado weberiano como ponto de partida e, com isso, pensa nas relações entre as novas formas de violência e o Estado. A partir disso, o Estado (pensando como exclusivo possuidor do direito ao uso da força) estaria em xeque, pois as formas mais antigas de violência, e que tinham os países como referência, teriam se enfraquecido, dando lugar a outras forças que o ameaçam.

*Michel Wieviorka» Autor de vasta obra que contempla temas como movimentos sociais, racismo, violência e globalização, o sociólogo francês Michel Wieviorka foi presidente da International Sociological Association (ISA) e dirige pesquisas na École des Hautes Études en Sciences Sociales.

De maneira semelhante a Hall, o autor enfatiza que a aceleração da globalização culminou em economias estatais cada vez mais interdependentes. Além disso, entende que do ponto de vista cultural, a mundialização significa uma homogeneização das particularidades locais. Assim, os Estados se tornam integradas, especialmente a partir do consumo de bens físicos e simbólicos. Da mesma maneira, os quadros territoriais, administrativos e políticos da vida econômica dos países se constituem e se diferenciam menos facilmente. Os governos nacionais passam a ser cada vez menos capazes de controlar a economia, não apenas por deixarem de serem os proprietários dos meios de produção, cada vez mais nas mãos de empresas civis, mas também devido ao enfraquecido em suas funções reguladoras contra o capital civil, que pressiona os governantes em torno de seu interesse. Pela mesma questão da independência da economia, os Estados tornam-se cada vez mais propensos a se omitir em relação a inúmeras atividades ilegais, como mercados negros, trabalho clandestino, tráfico de armas, de drogas e de bens de consumo.

Outro ponto levantado por Wieviorka é a crescente privatização da segurança pública, através de empresas de segurança privada e de milícias que, de certa maneira, ameaçam o monopólio estatal analisado por Weber. O autor também chama a atenção para a massiva desterritorialização dos indivíduos em relação aos seus lugares de origem, de forma que os laços entre o território e a cultura local são rompidos.

Com a soma desses elementos, o Wieviorka analisa que “é cada vez mais difícil para os Estados assumirem as funções clássicas”. Dessa forma, “a nação não pode tão facilmente como antes reclamar para si o monopólio ou o primado absoluto da identidade cultural das pessoas reunidas no seio da comunidade imaginada que ela constitui”. Sem encerrar a questão, o autor traz a interpretação de um possível retorno aos impérios antigos ou à Idade Média, com o declínio do Estado: “As fórmulas podem variar, o fato é que elas tanto marcam a ideia de uma superação da forma contemporânea do Estado, como, ao mesmo tempo, uma reinvenção do que foi experimentado no passado”.

Outro estudioso que pensou sobre os possíveis efeitos da globalização no Estado nacional foi o sociólogo francês Michel Wieviorka* Michel Wieviorka*. Em seu artigo O Novo Paradigma da Violência, ele afirma que “de muitos pontos de vista, os Estados contemporâneos, ou pelo menos alguns dentre eles estão enfraquecidos”. Apesar de seu foco principal ser a realização de um balanço da violência no passado e na atualidade, verificando as mudanças e as continuidades, o autor acaba lidando com a questão da alteração na configuração do Estado nacional, assim como no seu possível declínio. Isso ocorre porque Wieviorka toma o já analisado conceito de Estado weberiano como ponto de partida e, com isso, pensa nas relações entre as novas formas de violência e o Estado. A partir disso, o Estado (pensando como exclusivo possuidor do direito ao uso da força) estaria em xeque, pois as formas mais antigas de violência, e que tinham os países como referência, teriam se enfraquecido, dando lugar a outras forças que o ameaçam.

*Michel Wieviorka» Autor de vasta obra que contempla temas como movimentos sociais, racismo, violência e globalização, o sociólogo francês Michel Wieviorka foi presidente da International Sociological Association (ISA) e dirige pesquisas na École des Hautes Études en Sciences Sociales.

De maneira semelhante a Hall, o autor enfatiza que a aceleração da globalização culminou em economias estatais cada vez mais interdependentes. Além disso, entende que do ponto de vista cultural, a mundialização significa uma homogeneização das particularidades locais. Assim, os Estados se tornam integradas, especialmente a partir do consumo de bens físicos e simbólicos. Da mesma maneira, os quadros territoriais, administrativos e políticos da vida econômica dos países se constituem e se diferenciam menos facilmente. Os governos nacionais passam a ser cada vez menos capazes de controlar a economia, não apenas por deixarem de serem os proprietários dos meios de produção, cada vez mais nas mãos de empresas civis, mas também devido ao enfraquecido em suas funções reguladoras contra o capital civil, que pressiona os governantes em torno de seu interesse. Pela mesma questão da independência da economia, os Estados tornam-se cada vez mais propensos a se omitir em relação a inúmeras atividades ilegais, como mercados negros, trabalho clandestino, tráfico de armas, de drogas e de bens de consumo.

Outro ponto levantado por Wieviorka é a crescente privatização da segurança pública, através de empresas de segurança privada e de milícias que, de certa maneira, ameaçam o monopólio estatal analisado por Weber. O autor também chama a atenção para a massiva desterritorialização dos indivíduos em relação aos seus lugares de origem, de forma que os laços entre o território e a cultura local são rompidos.

Com a soma desses elementos, o Wieviorka analisa que “é cada vez mais difícil para os Estados assumirem as funções clássicas”. Dessa forma, “a nação não pode tão facilmente como antes reclamar para si o monopólio ou o primado absoluto da identidade cultural das pessoas reunidas no seio da comunidade imaginada que ela constitui”. Sem encerrar a questão, o autor traz a interpretação de um possível retorno aos impérios antigos ou à Idade Média, com o declínio do Estado: “As fórmulas podem variar, o fato é que elas tanto marcam a ideia de uma superação da forma contemporânea do Estado, como, ao mesmo tempo, uma reinvenção do que foi experimentado no passado”.

O Marxismo e o Fim do Estado

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Uma outra maneira pela qual é possível pensarmos na abolição do estado é pela perspectiva teórica marxista. em uma pequena entrevista, o professor Alvaro Bianchi, integrante do departamento de ciências Políticas da unicamp e especialista no tema, buscou esclarecer as concepções marxistas sobre o Estado.

Como Marx compreende os estados?
No Manifesto Comunista Karl Marx e Friedrich Engels definiram o governo moderno como o comitê executivo dos negócios comuns a toda a burguesia. essa definição pode ser interpretada de um modo instrumental, segundo o qual o estado é apenas um aparelho da classe dominante. em seus estudos histórico-políticos, entretanto, Marx deixou clara a sua perspectiva relacional: o estado moderno é ele próprio resultado e participante do conflito entre capital e trabalho.

Para Marx, os estados seriam necessariamente superados?
A política tem como característica a dominação de uma parte da sociedade por outra. enquanto houver dominação de classe haverá política e esta assumirá uma forma estatal. Mas, se o comunismo é o fim das classes e da luta entre elas, então ele é também o fim da política e do estado como forma de dominação. segundo Marx e Engels, com o comunismo, o poder público perde seu caráter político, ou seja, estatal.

Na visão marxista, qual seria a alternativa aos estados nacionais superados?
A associação de homens e mulheres livremente é a alternativa. É importante notar que Marx e Engels não falam no fim do poder público e sim no fim do poder político, ou seja, daquela forma de poder que tem por objetivo garantir a dominação de uma classe por outra.

Como a sociologia marxista atual interpreta a existência dos estados nacionais? ainda se tem a mesma concepção de Marx?
A teoria política marxista avançou muito desde a morte de Marx. Lenin, na década de 1910, teve um papel muito importante na reconstrução da teoria marxiana do estado, resgatando a importância dos textos de Marx referentes à comuna de Paris. Neste autor, fica clara a perspectiva de destruição do estado capitalista e as novas formas que um estado de transição deveria adotar. A partir do final dos anos de 1960, uma nova onda de estudos marxistas sobre o estado ganhou corpo, procurando compreender a permanência da dominação capitalista. tais estudos procuraram esclarecer alguns temas, como o porquê do estado nacional não se apresentar como instrumento de dominação de uma classe por outra, mas sim como o estado de todos; além da investigação sobre a compatibilidade entre capitalismo e intervenção estatal na economia e a investigação da relação entre a burguesia e a elite do poder.

 

O fim do Estado?

Dica de Livros

Um mapa da questão nacional (Contraponto, 2000) BALAKRISHNAN, Gopal (org.)

A crise do Estado-nação (Civilização Brasileira, 2003) NOVAES, Adaulto (org.)

Economias e culturas cada vez mais interligadas; desvinculação entre territórios e culturas locais; novas formas como as pessoas se relacionam com a política; predominância de empresas civis na economia mundial; enfraquecimento do controle estatal sobre a economia; além da crescente privatização da segurança e da proliferação de atividades ilegais no campo internacional, com pouco controle governamental, são alguns dos elementos que sugerem o enfraquecimento do Estado, pelo menos no formato como o conhecemos. Ainda assim, a instituição estatal sobrevive por milênios. “Ao que diz respeito às sociedades ditas complexas, todas se viram obrigadas a criar o tipo de poder estatal. E, uma vez criado, não houve nenhuma outra configuração paralela”, explica Modesto Florenzano.

Entretanto, o professor reafirma que o desenho específico dos Estados ao longo da história variou bastante. Com isso, podemos pensar que talvez esteja sendo esboçado um novo contorno estatal, com a característica de ser mais abrangente e universal que os antigos. “A Europa vive um momento crucial nesse sentido, pois aprofundar a comunidade europeia significa enfraquecer o poder dos Estados-nação que a constituem. Para que o poder supranacional europeu possa se completar, será preciso, necessariamente, enfraquecer e desmontar o poder estatal nacional”, aposta o professor.

http://sociologiacienciaevida.uol.com.br/ESSO/Edicoes/34/estado-em-questao-instituicao-fortalecida-apos-as-revolucoes-que-213698-1.asp

 

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